“Havia
sido uma mudança melancólica e Emma não podia fazer nada a não ser suspirar e
desejar coisas impossíveis, até que o pai percebesse e ela se visse obrigada a
parecer alegre.” (Emma, Jane Austen)
O pai
do polvo é também avô do Cupido (também conhecido como Eros). Cupido é um gato
com lindos olhos claros que mudam de cor de acordo com a iluminação. As sereias
fugitivas desprezam solenemente o teatro de marionetes chamado Bar dos
Desapegados. Mas o Bar dos Desapegados anda lotado e em evidência na mídia e em
aulas de psicologia de botequim. Até um filme de arte já foi feito sobre o Bar
dos Desapegados (e também três documentários). Além dos livros de auto-ajuda e
best-sellers autografados por celebridades adeptas do poético movimento dos
Desapegados. Poesia de botequim ou de barco improvisado. A tempestade alaga as
ruas e o lixo não está sendo recolhido. As casas infestadas de mosquitos e os
tetos desabando. E as tristezas descabidas – todas justificáveis. Todas
perdoáveis. Todas fáceis de serem esquecidas. Esqueça sempre. Esqueça até as
melhores lembranças e as difíceis ou improváveis saudades. Esqueça tudo, não há
sentido – não é uma questão de procurar. Não procure, diga que não existe mais.
Não crie (um ou muitos sentidos), diga que se acabaram todos. Não existe mais a
interpretação de silêncios. Não há palavras, há nuvens. São nuvens carregadas –
ou andando nas nuvens ou sonhando no Theatro Municipal. Em qualquer lugar é
igual – as sereias fugitivas. Fogem em citações de Gertrude Stein e em polidas
conversações de livros escritos por Jane Austen. Fogem do sol também. Como as
meninas de mãos dadas de outro texto. Ou de qualquer filme sonhado que jamais
será filmado. Nenhuma platéia verá. Ninguém fará download. As babuskas lésbicas
estão sonhando acordadas. Acordadas com a compreensão mútua e sonhando com
sapatilhas. Suspirar e desejar. Coisas tão impossíveis quanto realizar sonhos.
Esconda-se. Realize sonhos em esconderijos. Concretizando utopias e andando nas
nuvens. Cupido é um gato charmoso e culto – além dos lindos olhos claros que
mudam de cor de acordo com a iluminação. E o polvo tem um bom coração meio
inclinado a um infeliz abuso das palavras cafonas – mas é um bom polvo. E assim
as sereias descansam na banheira de hidromassagem – elas merecem. Merecem ficar
longe do teatro de marionetes. A liberdade tranquilizadora reina nas nuvens do
papel de parede no quarto da menina de cinco anos. Cinco anos de suspiros. E
vinte e dois anos de músicas apaixonantes. E quinze anos de poesia surrealista.
E a eternidade no tapete. A gata adulta mia como filhote ouvindo Ella
Fitzgerald – e os queijos são degustados na mais completa satisfação das
aspirações felinamente românticas.
“Era
alguém a quem Emma podia revelar tudo que pensava e que lhe dedicava um afeto
tão profundo que jamais terminaria.” (Emma, Jane Austen)
O
tempo é fútil, o tempo é volúvel, o tempo é eterno, o tempo é profundo, o tempo
passa, o tempo fica, o tempo restabelece, o tempo muda, o tempo transcorre
lentamente. O tempo absorve rapidamente. E a tempestade prevalece junto com as
nevascas do lado oposto ou seguinte ao sonho essencial das sereias tirando
fotos dentro do banheiro do Theatro Municipal.
Liz
Christine

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