terça-feira, 19 de maio de 2020

La lettrice (et les framboises)



Framboesas. E saudades da Itália.

Ela lembrou de Mântua. Ela fez café. Ela suspirou.

Eu me olhei no espelho. Eu bebi uma xícara de café. Eu abri o livro.

Fazia frio. Eu estava com sede.

Framboesas. E saudades da Itália.

Eu lia. Ela lia. Eu escrevia. Ela lia. Eu suspirava. Ela suspirava. Fazia frio. Eu estava com sede. Ouvia-se música. Ouvia-se silêncio. Bebia-se café. Os minutos passavam. As horas se multiplicavam. A saudade me reteve. Mas continuei caminhando. Não olhei para trás. Não olhei para os lados. Ela lia. Eu lia. Eu escrevia. Eu continuava lendo. Eu lembrei de Mântua. Ela suspirou. E então trancamos a porta à chave. E nada mais ouvimos que não fossem as saudades e as framboesas. Ouvimos as saudades. Escutamos as framboesas. E nada mais nos reteve. A saudade se desfez, e o silêncio se manteve. Mas o silêncio escrevia, escrevia todos os dias. E ela lia, e eu lia.

Liz Christine

sábado, 16 de maio de 2020

Le jardin animé



E aquele frenesi aveludado foi subitamente revivido (...). E a paz de espírito foi novamente saboreada (...). Em algum lugar da internet, vi uma frase que dizia: “Seja realista. Acredite em milagres.”

Eu acordei em Pádua, visitei Piacenza, sonhei com a Bretanha, e depois voltei para Blumenau. E vi cisnes, cisnes brancos e cisnes negros. E vi ovelhas, ovelhas adoráveis. E vi matrioskas, e depois voltei para casa.

Minha casa tem um jardim bem cuidado. Mas não deixo o gato sair de casa. Ele não pode mordiscar as plantas, poderia fazer mal. Mas eu posso. Eu posso mordiscar as plantas. Mas prefiro capim-cidreira e flor-de-laranjeira. E jasmim, claro.

Não espere conclusões. Vamos ouvir mais músicas.

Liz Christine

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Cerejas e um ramo de rosas



E então... E poi, (...), E então...

Aquele rosto não saía dos seus pensamentos.

Ela fotografava os gatos - o seu gato, o gato da vizinha, as gatas das redondezas.

Antes, ela tinha duas gatas e um gato.

Agora, ela tem uma outra gata e o mesmo gato.

Ela leu sobre a fada Pari-Banu. Ela releu todos os contos de As mil e uma noites.

E releu outros livros, e nada conseguia escrever.

Ela disse: “Tudo já foi dito antes. Até esta frase - tudo já foi dito antes - já foi dita e repetida.”

“Mas nada dissemos ainda” - foi o que disse a ovelha que degustava uma fatia gorda de camembert. “Deixe-me escrever por você” - disse a voz do sapo que andava sumido há tempos. E a gata miou. O gato miou também. O polvo sorriu. E aquele rosto não saía dos seus pensamentos. “Não diga nada” - ela disse a si mesma. Um pássaro azul se aproximou da janela.

As fadas trouxeram mais lascas gordas de camembert. E chovia. E continuava chovendo. As fadas trouxeram um ramo de rosas.

E dentro da música era primavera. Mas na realidade era outono. Onde ela vivia, porém,  era sempre primavera. E onde ela vivia? Ela vivia dentro daquela música. Qual delas?

“Liberte-me.” - disse a ovelha. “Quero plantar cerejas no seu conto.” - disse novamente a ovelha. “Mas eu não escrevo contos.” - ela respondeu. “Então isso é um poema?” - perguntou uma das corujas, eram muitas corujas ao redor dela. A coruja ficou sem resposta. Ela ofereceu um chá de mirtilo às corujas, para se desculpar por não haver respondido. Ela não queria mais falar. Não era por mal. Adorava seus bichinhos de estimação. Ela os tratava bem, e eles a ajudavam também (...).

Liz Christine

Dia das Mães