sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Sublinhados (allegro vivo)



Ela fecha os olhos e silencia as mãos. Mãos que massageiam ombros cansados. O calor insuportável. O frio do outro lado da página. Um livro de Balzac sobre uma marquesa que mantém uma amante. Ou um livro inacabado de autor nunca antes publicado. Poemas incansáveis. Olhares vagamente aleatórios. Escolhas impossíveis. Nada mais impossível que se desvincular do café diário. Café todos os dias e noites. Mais café. A escolha variante. Escolher não fugir – como é o costume dela. Ela fecha os olhos e silencia as mãos.

Mãos que massageiam ombros cansados. O calor insuportável. O frio do outro lado da página. Escolhas mais sensatas. Paixões mais plausíveis. Nada mais impossível que se desvincular do café diário.

Bala de café sem açúcar comprada na livraria da esquina. Ou receita caseira de bala de café com mel. Ou nozes. Ou dieta.

Dieta de palavras racionadas. Fala-se pouco em certos trechos do percurso. Atravessando distâncias controladas por defesas. Escolher não fugir – como é o costume em certos detalhes do diálogo.

A absorção dos detalhes pregnantes. A coreografia dos banhos da gata. Poemas incansáveis. Olhares vagamente aleatórios. A concentração em detalhes sutis.

As leituras intermináveis. O frio do outro lado da página. A neve que recobre silêncios parcelados. Saboreie em silêncio. O melhor do cappuccino. A tranquilidade infinita do silêncio preenchido. Preenchido por palavras submersas – camufladas em olhares intensos porém sutis. E as palavras se repetem. Releia os trechos sublinhados.

Liz Christine

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Urgências



A rainha que jamais se casou. A gravidez de Heloise. A escrita de Pierre Abelard. Palavras eternas saboreadas em silêncio. A rainha que jamais se casou e nunca teve herdeiros. O amor eterno fabricado na sorveteria e consumido diariamente. Consumindo urgências. Kitri não pode mais esperar.

La chatte blanche. Kitri e Lise se encontram discretamente e às vezes abaixam o tom de voz para não serem ouvidas por mais ninguém. Elas se vêem quase diariamente há oito anos mas não moram juntas ainda. Ou talvez nunca. A privacidade conserva as paixões. Ou não. Nunca se sabe. O amor eterno fabricado na sorveteria ou em rótulos de vinhos italianos.

O gato amável que não gosta de ficar sozinho durante muitas horas. As donas do gato são irmãs. Ou como se fossem. Ou realmente são irmãs. Nunca se sabe. A delicadeza dos miados ronronantes quando elas chegam em casa. Dessa vez elas trouxeram catnip.

A sorveteria é vinte e quatro horas. Palavras notívagas saboreadas em silêncio.

Liz Christine

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Andante delicato





Uma lágrima satisfeita sussurrou provocações ao vento que se enroscava em cortinas fechadas. O orgulho disfarça todos os acessos. As palavras fugiram. A liberdade da recusa. A liberdade da preferência. A liberdade do silêncio. A liberdade da música. O segundo ato. Uma lágrima satisfeita repetiu provocações sussurradas ao vento que se enroscava em cortinas fechadas – e o vento abstraiu sem responder. As palavras fugiram. O orgulho disfarça todos os acessos. Talvez um macaron de blueberry.

Silêncio (...). O silêncio apura todas as sensações indomáveis que florescem em dúzias de camélias. O amor libertário em notas de jasmim. O orgulho disfarça todos os acessos. As babuskas voltam para casa depois de jantarem fora. A liberdade da preferência. O segundo ato. Repetir. Sussurrar. Repetir todos os dias e noites a todo instante. Repetir o refrão daquela música. Repetir suaves declarações açucaradas. Repetir doces palavras. Talvez um macaron de blueberry. Inovar com consciência e um toque de delicadeza –

Repetir o refrão daquela música (...),

Liz Christine

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Introspecção




Ligeiramente depressivas. A profundidade do silêncio. Não. Não fume agora. Não. Não diga nada agora. A profundidade alheia das madrugadas quase. Quase alcançando plenitudes. Mas não. Não fume ainda. Sonhos baseados em silêncios. Sonhos embalados em. Não e não. Sim ou talvez. Paciência. Ainda não. A realidade deveria ser como os sonhos mais doces. Talvez. As ondas deveriam ser – ou talvez sejam realmente – plenas de. Repletas de. Suavidade. Intensidade. De novo e novamente e sempre. Cada vez mais. O auge e recomeça. Recomece sempre e de novo e novamente. Diariamente. A cada noite. A cada despertar. Todas as madrugadas infinitas. Prazeres irretocáveis. Repita sempre. De novo e sempre e novamente. A realidade deveria ser – e talvez seja realmente – como os sonhos mais doces. Como as poesias mais intensas. Como as espirais. Como as ondas dirigidas por estrelas. Dirija em silêncio. Divagando em silêncio. As ondas deveriam ser – e talvez sejam realmente – como suaves transparências. Esconda um pouco. E de novo e sempre e novamente. Esconda algumas palavras ligeiramente assustadoras ou assustadas. Esconda medos. Não tenha tantos. Medos. Libertar. Libertar sonhos. Os sonhos mais doces. As transparências mais intensas. Os esconderijos mais suaves. Repita. Diariamente. Todas as noites. E a cada madrugada. As mais sinceras. As verdades que mudam. Mudam sempre e a todo instante. Ligeiramente depressivas. As verdades que mudam. Sempre. E a todo instante. Esqueça. Esqueça algumas palavras ligeiramente assustadoras ou assustadas. O medo camufla alguns sentidos. Não. Não tenha mais. Freios. Ou sim, ou talvez. Pare sempre que quiser. Retorne sempre que quiser. Sonhos cíclicos. Realidades divergentes. Ligeiramente depressivas. As improváveis impossibilidades. As distâncias. Entre a real e a saborosa. Introspecção ou. Interpretação. De silêncios divididos com babuskas. Entre a real interpretação de. E a saborosa introspecção das horas em. Pausa.

Imprevisíveis. Não sei. As muitas e variadas babuskas, cada qual do seu jeito. Nada se parece com aquele filme. Aquele. As muitas versões de um balé. E as variadas babuskas, cada qual do seu jeito, aparecem diferentes em cada. Realidades fragmentadas. Mergulhando inteiramente. Completamente. Em cada uma. Realidades fragmentadas. Os bichanos compreendem inteiramente. Todas as fases. Da lua. E estágios. Dos sonhos.

Liz Christine

 

Dia das Mães